A educação no contexto da
globalização
Na
sua introdução ao livro Educação e
desenvolvimento económico: contribuição
para o estudo da natureza presente de uma relação, (Mesquita, 2000) afirma
que: “existe hoje, como talvez nunca tenha acontecido no passado, um “consenso”
quase esmagador sobre a importância central da educação no desenvolvimento
económico dos países e das regiões”. A educação assiste atualmente segundo este
autor a uma espécie de “remake” daquilo que aconteceu nas décadas de 60 e 70
embora numa perspetiva um pouco diferente, a aposta não numa massificação do
ensino, mas sim numa aposta da qualidade do produto educativo ministrado, mas
com a mesma finalidade económica.
Num
mundo multifacetado onde a globalização promoveu políticas educativas
internacionais pelas ações de organizações como a OCDE e a UNESCO, a teoria do
capital humano é novamente recuperada. A existência de um mercado de trabalho
global exige trabalhadores polivalentes capazes de se adaptarem rapidamente às
transformações da sociedade.
É
neste quadro que segundo Mesquita (2000) se insere o denominado “livro branco”
da Comissão Europeia Ensinar e Aprender –
Rumo à Sociedade Cognitiva (Comissão Europeia, 1995). Este documento enuncia
três grandes motores para as metas da educação na sociedade globalizada: a mundialização das trocas, o advento da sociedade da informação e a aceleração da revolução científica e
técnica. Como consequência destes três motores assiste-se à necessidade de
aumentar as qualificações de modo a responder a um mercado de trabalho sem
fronteiras, à necessidade de adaptar-se às novas complexidades de trabalho mais
autónomo e variado, e por fim imbuir-se de uma cultura científica e técnica.
Tal
como afirma (Mesquita, 2000) “as políticas educativas dos governos passam a ser
uma componente fundamental das políticas económicas”. Desta forma, a educação
passa a ser orientada por critérios empresariais de eficiência e rentabilidade.
Esta tendência acompanha a tentativa de penetração do capital privado em áreas
lucrativas normalmente administradas pelo estado.
A
corroborar esta ideia diz (Hill, 2003):
A
reestruturação mundial dos sistemas de ensino e educacionais faz parte de uma
ofensiva ideológica e política neoliberal. A privatização dos serviços
públicos, a capitalização e a reificação da humanidade e dos comandos globais
das agências do capital internacional – apoiados pela desestabilização de
governos que resistem e, por fim, pelas cavalarias armadas dos EUA, seus aliados
e mandatários – resultam na criação de mercados competitivos quase globais (se
não universais) para os serviços públicos e aqueles voltados ao bem – estar
social, tais como a educação. Estes mercados educacionais são marcados pela
seleção, exclusão e são acompanhados por, e situam-se dentro de, um quadro de
crescimento exponencial das desigualdades, quer no âmbito da nação, quer
internacionalmente (Hill, 2003, p. 25).
Ora
estas visões mostram claramente que a educação contínua a seguir uma lógica económica.
Ainda
dentro desta problemática surge a crítica de Mesquita (2000) e Oliveira (2005) ao
relatório feito pela “The European Round Table of Industrialists” (1995) que
embora foque a necessidade de educar “homens completos”, como se pode ler no
seguinte excerto:
A
missão fundamental da educação é ajudar cada indivíduo a desenvolver todo o seu
potencial e a tornar-se num ser humano completo, e não numa ferramenta
económica. A aquisição de conhecimentos e de capacidades deve ser acompanhada
por uma educação do carácter; por uma abertura cultural e por um estímulo à
responsabilidade social.” (ERT, 1995:15 cit
in Oliveira, 2005, p.78).
a
boa intenção é segundo este autor muito ténue, uma vez que o que está em causa
é: “ uma conceptualização da educação que funcione não ao serviço do
desenvolvimento do indivíduo enquanto cidadão capaz de intervir civicamente na
sociedade e fazer escolhas, mas ao serviço dos interesses da sociedade económica
que predomina…” (Oliveira, 2005, p. 78). Esta ideia é apoiada no texto
transcrito por Oliveira (2005): “O mundo industrial tem necessidade de
indivíduos empreendedores e não de robots. As empresas têm necessidade de
indivíduos autónomos, capazes de se adaptar a permanentes mudanças e de
ultrapassar continuamente novos desafios” (Oliveira, p. 78).
Verifica-se nesta transcrição,
precisamente essa estreita orientação da educação à esfera produtiva, surgindo
a escola como “produtora de homens completos”, segundo uma perspetiva
empresarial.
Na sequência deste pensamento (Ball,
2001) aponta o dedo às lógicas economicistas onde afirma que:
estamos
a assistir ao desaparecimento gradual da concepção de políticas específicas do
Estado Nação no campos econômico, social e educativo e, concomitantemente o
abarcamento de todos estes campos numa concepção única de políticas para a
competitividade econômica, ou seja, o crescente abandono ou marginalização (não
no que se refere à retórica) dos propósitos sociais da educação (Ball, 2001, p.
100).
Na prática assiste-se a um
estreitamento entre a orientação política e a económica que, em conjunto vão
gradualmente, definindo as prioridades educativas, de modo a que todo o
universo da educação seja gerido como uma empresa, desde a administração até à
elaboração dos currículos.
Segundo,
Hill (2003) o neoliberalismo resultou em:
Uma perda de equidade, e da justiça
econômica e social;
Uma perda de democracia e da
responsabilidade democrática;
Uma
perda de pensamento crítico dentro de uma cultura de desempenho (Hill,
2003, p. 28).
Perante,
esta lógica de vigência de interesses privados e a consequente colocação em
causa de valores tão fundamentais como o da democracia, do exercício da
cidadania e da qualidade das aprendizagens, várias têm sido as intervenções,
cuja, a atuação é a de sublinhar os riscos que esta orientação social baseada
na competição económica coloca.
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